segunda-feira, 26 de março de 2018

A encomendadeira do Caju – uma história real


Na semana em que acompanhei meu pai no hospital São Francisco e na semana de seu falecimento, aconteceram coisas meio extraordinárias comigo. Dois exemplos: enquanto meu pai lutava, fui confundida com uma cega no metrô e fui ajudada como tal; na semana em que ele se foi, fui pedida em casamento três vezes por um mesmo homem que não foi o Luiz. Porém, um dos mais extraordinários acontecimentos se deu no dia do velório. Papai morreu na 2ª (5/3) e foi velado na capela 5 do Memorial do Carmo (no bairro do Caju) na 3ª (6/3).
Quando alguém de quem a gente gosta morre, é comum tentar realizar as vontades da nossa pessoa. Eu tinha um guia: papai elaborou um tutorial a respeito em 2003, em uma carta. Eu sabia essa carta de cor, mas como sempre duvido de mim..., pedi ao Luiz que a digitalizasse e a enviasse, para que eu não me equivocasse. Papai era exigente. Assim, eu sabia que ele queria ser velado com esquife fechado, que gostaria que alguém o encomendasse, que gostaria de ser cremado e que gostaria que suas cinzas fossem espargidas na serra de Petrópolis. Fiz tudo. O espargimento das cinzas também teve sua cota de extraordinariedades...
Quando eu e minha mãe chegamos ao Memorial do Carmo, o esquife não estava fechado. Procedimento comum, afinal é preciso ter a confirmação de que se trata do nosso morto. Deixei meus pais um tempo sozinhos. Minha mãe tinha chegado na própria 3ª. Enquanto ela conversava com ele, eu pensava nas exéquias. Tinha solicitado à funerária (junto ao Hospital São Francisco) que alguém fosse ao velório para a encomendação, mas saí sem confirmação, meio exausta, avoada, preocupada e um mais milhão de particípios.
Depois que fechamos o esquife, corri na vizinha de capela de papai. Havia lá umas 20 coroas; papai tinha 1, a minha[1]; havia um monte de gente; papai recebeu um petit comité de primeira amizade!; havia lá um filho; papai tinha uma filha. Perguntei a meu parceiro de luto se a família dele tinha conseguido um padre e, muito delicadamente, disse que gostaria de pedir o sacerdote emprestado. Ele não sabia de padre; disse que tudo estava nas mãos do pai. Olhei esse pai: um senhor mais velho que o meu, tentando ser um polvo para dar conta de todos os apertos de mão e abraços... Eu me encolhi. Fui à recepção e pedi ajuda. A pessoa que me atendeu, D. Maria das Graças, disse-me que era possível buscar no São Francisco Xavier alguém da Pastoral das Exéquias.
Corri na capela de papai, abracei a amiga Marilene Calazans que havia chegado e disse à mamãe que ia trazer alguém da pastoral. Minha mãe me fez prometer que pegaria um táxi até lá e eu, tão empenhada em cumprir todas as promessas a papai, não deixaria a minha mãe em falta. Mas... como todos os cariocas sabem, era uma questão de metros. O motorista nem cobrou.
Tanto o Memorial do Carmo quanto o São Francisco Xavier estavam lotados. 2ª feira foi tensa e intensa para muito mais gente que eu. Lá, eu fui amparada por um senhor muito gentil que percorreu comigo várias capelas atrás de uma senhora da pastoral, que estava naquele momento fazendo a encomendação de vários falecidos. Procuramos bastante e a encontramos. Eu me aproximei e fui direta: - Senhora, meu pai está no Memorial do Carmo e vai ser cremado hoje, às 18:00. Ele manifestou o desejo de ser encomendado e eu estou aqui para cumprir isso. A senhora poderia me acompanhar até lá? A senhora vai e volta de táxi. Por favor. Ela aceitou na hora, só me disse que encomendaria uma pessoa naquela capela (estávamos na porta de uma capela) e que eu esperasse, ou melhor, se quisesse acompanhá-la, que eu poderia.
Entramos. Ela me deu o folheto. Identificou-se. Expressou os sentimentos à família de D. Josefina (ou Josefa, agora começo a duvidar...) e começou: em nome do pai, do filho... quem quer começar a ler? Olhou para mim: Vai você. Fui. Tirei o melhor de mim naquele momento, sem os óculos dos quais já tanto necessito. Li com amor, com rigor, ou como disse a minha prima Andréia Bentes, como professora universitária!; li tudo o que era “da assembleia”. Olhei a família, marido, filhos, pressenti irmãos; todos muitos próximos ao esquife escancarado. Vi o semblante. D. Josefina tinha os seus. D. Josefina, estou aqui também, entre eles. Às vezes, quando a gente tem muito a fazer, nossa cabeça fica apartada dos gestos que executamos, antevendo os próximos. Mas eu estava toda ali, com aqueles meus desconhecidos.
Ao final, senti meu celular tocar no bolso da calça. Era minha mãe: Volta agora. Chegou uma pessoa do hospital para encomendar o teu pai. Fiquei alguns segundos em uma desrealidade... Aproximei-me daquela senhora frágil no corpo, forte na voz, envolvida no jaleco branco e a abracei. Falei ao ouvido que não precisava mais..., que alguém tinha chegado lá no Carmo. Ela sorriu. Você tinha de estar aqui para me ajudar. Não retive o seu nome. Conheço seu semblante.
Nas semanas em que estive no Rio, fui corajosa. Nada comparado à fraqueza que sinto agora; quase não reconheço meu corpo cansado, pesado, arrastado, sonolento. Quando voltei ao Memorial, corri pelo cemitério, corri mesmo!, até a capela. Senti o suor no peito. Eu tinha acabado de colaborar nas exéquias de uma pessoa desconhecida. Eu me sentia parte de uma coisa indefinida até agora, mas tão boa! Eu fui forte.
Ao chegar, abracei-me à Irmã Gianne. Era ela! A religiosa que rezou pelo meu pai comigo em 2015; a religiosa que rezou por ele comigo este ano! No hospital, em uma 6ª feira em que minha enxaqueca atingiu o grau do descontrole, ela segurou a minha mão e me reconduziu ao equilíbrio.   
Fechamos a capela e encomendamos o meu pai. Fomos 4 mulheres: eu, a irmã Gianne, a amiga Marilene e mamãe. Demos as mãos, contornamos o esquife, falamos de papai. Ela fez perguntas, nós respondemos. Marcella, se um livro fosse escrito sobre o Paulo, que título teria? Impressiona-me até agora que eu tenha conseguido responder na hora a tudo. Meu pai seria uma música: My way. Em nome do pai, do filho... Marcella, leia o evangelho... Eu estava treinada. Houve um momento em que a porta da capela foi aberta. Era o filho ao lado, Se eu pudesse emprestar... Depois, falei. Ai, os nossos pequenos egoísmos...
Acho que a Irmã Gianne encomendou todo mundo naquela tarde no Memorial do Carmo. Depois de tudo, ela ainda veio me dar um beijo e seguiu para o ponto – mesmo eu tendo suplicado para que seguisse de táxi –, para pegar as 4 conduções de volta ao hospital. Lá deve ter cumprido a sua agenda junto aos doentes. Nem se eu falasse todas as línguas, poderia agradecer àquela mulher; nem se eu falasse todas as línguas, eu saberia agradecer à minha amiga do São Francisco Xavier, que me ensinou o que eu não sabia.
Como eu disse, coisas fora do comum aconteceram comigo ao longo das semanas em que o incomparável mesmo foi ver meu pai partir. Essa história de ter encomendado uma desconhecida já arrancou gargalhadas de várias pessoas que me abraçaram depois que papai se foi. A amiga dele, Leila Oliveira, me disse que ele queria alegria na partida. Então, acho que, sem procurar cumprir exatamente esse desejo, tudo acabou por acontecer conforme.
Há uma pequena ironia aqui que ele terá de perdoar. Papai era bem machista e foi encomendado por mulheres. Nossa voz se ergueu para iluminar o caminho dele até os braços da mãe que ele perdeu tão cedo. Eu já escrevi que imaginei com força meu pai menino no colo da vovó Armanda. Ele é pequeno outra vez e era alto!; ele é magro e era forte!; ele é alegre, risonho, manso e cheio de paz.

Epílogo:
Acho que em uma frase com o verbo superar e o substantivo morte, ela não é objeto direto... Eu chorei chorado o meu pai 2 vezes. A primeira quando saí do CTI, depois da notícia. Mas procurei me esconder das pessoas na fila, afinal não tem nada mais constrangedor para quem vai ver um doente no CTI que ver uma pessoa sair lá de dentro desfeita em lágrimas. A segunda vez foi quando tive de deixar o esquife seguir para o crematório. Eu fui erguida pelo abraço dos meus. Minha mãe me prometeu: Eu estou aqui. Tenho procurado lembrá-la diariamente, sobretudo quando adivinho que está tentada a descumprir a promessa diante de um pastel, de uma empada, de um quibe frito ou diante de um doce cheio de malignidades para seu corpo.
Em 5/3, perdi um grande personagem da minha história pessoal de leitura; um incentivador da minha escrita, perdi um leitor. Meu exigente leitor. Em 6/3, eu me tornei muitas coisas. Destaco duas: órfã e encomendadeira.



[1] Quando o Sr. Artur da Funerária Casa Bom Pastor me perguntou o que eu queria escrever na coroa, não titubeei e disse: Escreva “Amanheceu”. Eu aprendi o significado desse amanhecer com um ex-aluno, o André Siqueira.

4 comentários:

  1. Marcela, sou sua colega aqui da UFPR, do outro lado do mesmo sexto andar. Só queria dizer que achei lindo e comovente este teu relato e queria lhe deixar um forte abraço.
    Eva

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pela sua leitura e afeto. Um abraço.

      Excluir
  2. Marcela querida, o que dizer diante o amor puro? apenas SENTIR.
    Gratidão sempre linda menina.
    Beijinho no coração.

    ResponderExcluir